O esporte e o atleta trans


No Dia Nacional da Visibilidade Trans a Soul traz o questionamento da inclusão no esporte. Muitos ainda perguntam: é justo mulheres trans, que nasceram em corpos com características masculinas, disputarem competições com mulheres cis?


Antes de responder, acredito ser importante esclarecer o que significa quando alguém se identifica como transgênero. De uma maneira "simples", uma pessoa transgênera é quando não se identifica com o gênero atribuído ao nascimento. Ou seja, o homem trans quando nasceu, foi designado como mulher. E a mulher trans foi designada como homem no nascimento. Já homens e mulheres cis, são aqueles que se identificam com o gênero atribuído ao nascimento.


Acho importante esclarecer para que a discussão de qualquer assunto seja sempre embasada em fatos, e não apenas em julgamentos. Já que em caso de pessoas da comunidade LGBTQIAP+, o julgamento causa preconceito e violência de todos os tipos.


Em 2015 o COI realizou uma reunião de consenso sobre redesignação sexual e hiperandrogenismo. Nesta reunião diretrizes foram definidas para a participação de pessoas transgêneras no esporte para serem consideradas pelas organizações esportivas ao determinar a elegibilidade para competir em competições masculinas e femininas. Como determinado, pessoas que fazem a transição do feminino para o masculino são elegíveis para competir na categoria masculina sem restrições. Já pessoas que fazem a transição do masculino para o feminino são elegíveis para competir na categoria feminina, mas precisam seguir algumas restrições como, por exemplo: a atleta precisa declarar que sua identidade é do gênero feminino e não mudar por 4 anos, deve demonstrar que seu nível total de testosterona no soro esteve abaixo de 10 nmol/L por pelo menos 12 meses antes de sua primeira competição, além de outras regras que você pode conferir neste link.


Ano passado o COI liberou também uma nova estrutura sobre justiça, inclusão e não discriminação com base na identidade de gênero e nas variações de sexo. Essa estrutura tem o principal objetivo de promover um lugar seguro e acolhedor para todos envolvidos em competições de elite, além de reconhecer o papel central que os critérios de elegibilidade desempenham para garantir a justiça, particularmente no esporte organizado de alto nível na categoria feminina.


Movimentações como essa são extremamente necessárias para a evolução e inclusão do esporte. Quando vi atletas trans nas olimpíadas de Tóquio senti um gosto de vitória incrível. A medicina está avançando e o esporte tem acompanhado. As definições do COI mostram claramente que está sendo buscado maneiras de incluir atletas independente do seu gênero. E promover oportunidades iguais para todos.


Aqueles que questionam a participação da mulher trans precisam se atentar aos fatos e acompanhar o que está sendo feito para garantir justiça para todos os competidores. Regras como controle de testosterona mostram que a inclusão é para todos, sejam para as mulheres cis ou trans. “Isso (controle de testosterona) reduz significativamente as funções musculares, capacidade pulmonar, quantidade de hemácias e colocam essas atletas dentro de um patamar que torna justa a competição com mulheres cis”, explicou o especialista Saulo Ciasca. Ele é médico e coordenador de pós-graduação de psiquiatria da Sanar, além de professor de Saúde LGBTQIA+ e membro da WPATH – World Professional Association for Transgender Health.


O esporte é inclusivo. O esporte é uma ferramenta de transformação. E isso precisa ser para qualquer pessoa envolvida nesse ecossistema. Atletas, técnicos, árbitros, quem quer que seja, precisam se sentir seguros ao entrar em campo ou em um ginásio. O Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, só ano passado foi registrado 140 assassinatos de pessoas trans (fonte: Dossiê Antra 2022). Não podemos mais aceitar e nem fechar os olhos para o preconceito.


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